| 
  • If you are citizen of an European Union member nation, you may not use this service unless you are at least 16 years old.

  • Want to get organized in 2022? Let Dokkio put your cloud files (Drive, Dropbox, and Slack and Gmail attachments) and documents (Google Docs, Sheets, and Notion) in order. Try Dokkio (from the makers of PBworks) for free. Available on the web, Mac, and Windows.

View
 

A Casa da Tia Noémia

Page history last edited by Inpi 10 years, 5 months ago

 

 

A Casa da Tia Noémia

 

     - Chegámos! – Disse a mãe.

      - É aqui? – Perguntou a Joana. – Que estranho, parecia maior…

     - É natural. A última vez que viemos à Parede, já foi há uns anos.

     - E quando somos mais pequenos, tudo nos parece maior.

 

     Lá estava a casa da tia Noémia. Era uma pequena casa com dois andares e umas águas-furtadas, pintada de um rosa-velho, já desbotado. As portadas das janelas em tom verde-escuro estavam partidas e algumas “presas por um fio”.

 

     Nos beirais, vasos de sardinheiras murchas tentavam dar um ar da sua graça. Em redor da casa, estendia-se um gradeamento verde-escuro, descascado e enferrujado, com dois portões: um para o jardim e outro para a garagem. Porém, neste desmazelo, duas coisas sobressaíam pela sua solidez: a porta de entrada e um enorme e majestoso jacarandá.

 

     - Que casa tão velha! - disse o Miguelinho. – É aqui que vamos passar o tempo todo das férias da Páscoa?

 

     - Vá Miguelinho, não comeces com coisas. A tia Noémia está muito contente com a vossa vinda. Podem passar aqui uns bons momentos. Têm espaço cá fora para brincar, podem andar de bicicleta, brincar no sótão…

 

     - Oh, não vou ter aqui os meus amigos para brincar! – Ripostou o Miguelinho, cruzando os braços amuado. E virando-se para Joana, com os olhos muito abertos – Achas que tem fantasmas?

 

     - A Joana franziu os olhos, arreganhou os dentes e com uma voz maliciosa sussurrou:

 

     - Se calhar, Miguelinho, se calhar… E durante a noite, quando menos esperas, vêm aí…

 

     - Então, Joana! – Interrompeu a mãe. – O que é que nós combinámos? Tens de tomar conta do teu irmão. Vá, vá, saiam do carro. A tia já aí vem.

 

     Do portão do jardim surgiu então a tia Noémia, com a sua figura alta e robusta, de cabelo grisalho e preso num carrapito mal amanhado. Apesar do seu ar decidido, avançou com hesitação, com um sorriso aberto, porém algo receoso. O seu olhar era duro, no entanto, pressentia-se o brilho da ternura de outros tempos.

 

     Vinha com um vestido desengonçado, fora de moda, e toda a sua aparência desarrumada terminava nuns sapatos deformados que atacavam o chão de forma despreocupada. Enfim, era uma mulher forte, com carácter, mas a quem o tempo parecia agora indiferente… como se já não se preocupasse com as coisas da vida.

 

     Uma pequena pausa tomou a Joana e o Miguelinho, perplexos mais uma vez perante aquela figura que só costumavam ver uma vez por ano, por altura do Natal.

 

Isabel Novais e Maria Monteiro, As Estranhas Cartas de um Músico,

Ed. Kual

 

 

 

 

Comments (0)

You don't have permission to comment on this page.